Nas eleições 2026, nenhuma das duas candidaturas do segundo turno cita a educação parental, e mesmo assim o resultado de domingo, 25 de outubro, vai definir que serviço público encontraremos disponível quando procurarmos trabalho numa escola, numa UBS ou num CRAS.
Quem já tentou conhece o percurso. Levamos o projeto à coordenação da escola do bairro, depois à gerência da UBS, depois à equipe do CRAS, e ouvimos nas três portas alguma variação de ‘o trabalho é lindo, só não temos onde te encaixar’. A cena se repete com muitas colegas, e a pergunta que acompanha a volta para casa é se a eleição melhora, piora ou deixa tudo igual nesse corredor.
Muita gente da nossa categoria acredita que, se nenhum plano fala da educação parental, tanto faz quem vença. Discordo radicalmente dessa leitura. A porta que a gente procura fica dentro de um serviço público, e os dois planos em disputa propõem destinos opostos para esse serviço. Não sou neutra nesta análise, e prefiro dizer isso logo.
Dois projetos para o mesmo serviço público
Vale começar pela palavra. Público vem do latim publicus, o que pertence ao povo. Serviço público é aquele que o Estado presta e pelo qual responde. Serviço pago com dinheiro público é outra coisa: o dinheiro sai do mesmo caixa, mas quem contrata, organiza e decide é uma empresa ou uma organização privada. A diferença parece detalhe de dicionário até a gente olhar o que cada candidatura faz com ela.
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) promete creche em período integral e, “onde não houver vaga na rede pública”, um voucher-creche para a família usar na “rede privada credenciada”, com “parcerias público privado com estados, municípios e organizações sociais”. O mesmo texto anuncia o corte de “no mínimo 10 ministérios” e a redução de cargos, sem uma linha sobre concurso. A Agência Brasil observa que o plano não detalha de onde viria o dinheiro dos vouchers.
Leio aí uma perspectiva neoliberal de parceria, em que o Estado deixa de prestar o serviço e passa a comprá-lo. Quem vende para o governo disputa contrato pelo menor valor, e o menor valor costuma sair da parte mais cara de qualquer serviço de cuidado, que são as pessoas que cuidam.
O que a parceria já mostrou onde virou regra
A cidade de São Paulo ajuda a ver aonde esse caminho leva. Uma auditoria do Tribunal de Contas do Município, divulgada em maio de 2026 e noticiada pelo Estadão, em texto publicado no Terra, mostra que as creches conveniadas respondem por 84% das crianças de 0 a 3 anos da capital, e que seus professores ganham entre 25% e 38% menos que os da rede direta, em parte porque não têm plano de carreira.
Na mesma auditoria, cada professor da rede parceira acompanha, em média, 9,3 crianças, contra 4,4 na rede direta, e o tribunal fala em “profunda desigualdade de qualidade”. A Secretaria Municipal de Educação defende as parcerias como forma de ampliar o acesso, e a vaga de fato existe. O colo é que ficou mais disputado. São Paulo é uma cidade e o voucher-creche ainda é proposta, então a ligação entre as duas coisas é leitura minha, mas é a leitura que os números permitem.
Na saúde, o desenho se parece. No Acórdão 2468/2023, o Tribunal de Contas da União apontou riscos de fraude na participação de organizações sociais no SUS, com editais que traziam “itens de pontuação técnica já direcionados para determinada entidade”, e registrou a “inexistência de base de dados oficial consolidada” sobre essas organizações no país. Risco em auditoria não prova que toda parceria piora o atendimento, só que revela o fundo do problema: o Estado paga sem ter sequer um cadastro nacional de quem recebe.
Fora do Brasil, o Chile organizou a escola por vouchers desde os anos 1980, e um estudo publicado pela CEPAL coloca o sistema chileno entre os de maior segregação socioeconômica entre os países do PISA. Um artigo de 2021 no British Educational Research Journal conclui que a separação entre estudantes ricos e desfavorecidos não caiu de forma significativa ao longo das reformas. Voucher tem nome de escolha, e lá a escola acabou separada por renda.
Para nós, esse projeto troca o interlocutor do outro lado da porta. Na creche credenciada ou na organização que gere a UBS, a conversa passa a ser com quem precisa fechar a conta do contrato, e uma roda com as famílias vira custo a cortar ou produto barato a oferecer. O plano ainda afirma que “quem decide sobre os valores que o filho recebe são os pais”, enquanto a Lei 13.010/2014 garante à criança o direito de ser educada sem castigo físico. É justamente nesse intervalo entre a autoridade da família e o direito da criança que a nossa categoria trabalha.
O projeto que aposta no setor público, com o caixa apertado
O plano de Lula (PT) segue na direção contrária. Segundo a Exame, ele propõe fortalecer o SUAS, o sistema que organiza a assistência social e ao qual o CRAS pertence, e o próprio programa reconhece CRAS e CREAS sobrecarregados, com baixa capacidade técnica e falta de equipes multiprofissionais. A Agência Brasil acrescenta a continuidade da construção de 3.562 creches e pré-escolas pelo Novo PAC. Vejo aí uma perspectiva de investimento na população: o Estado constrói o prédio, contrata a equipe e responde pelo atendimento.
O ponto fraco desse projeto é o dinheiro, e a fraqueza tem registro. Uma análise do Pleno News aponta medidas que aumentam gastos sem dizer como equilibrar as contas. A Lei 13.935/2019 mostra o tamanho do buraco, porque manda as escolas públicas contarem com psicologia e serviço social e, segundo o Conselho Federal de Psicologia, entidade que defende a lei, avança devagar por falta de custeio e de concurso. Lei sem verba é promessa com carimbo.
Mesmo assim, é um serviço que continua público e que já tem um vocabulário próximo do nosso. A Política Nacional de Cuidados, Lei 15.069/2024, cria o direito ao cuidado (ser cuidado, cuidar e cuidar de si) e divide essa responsabilidade entre homens e mulheres. É a gestora pública desse serviço que pode, um dia, ouvir um projeto de apoio a quem cuida e defendê-lo no orçamento.
Do corredor, as duas respostas soam iguais
Talvez você pense que, do lado de fora da porta, tanto faz: nos dois casos, não existe vaga com o nosso nome. Concordo com o retrato e discordo da conclusão. Num projeto, a nossa entrada vira negociação de preço com quem lucra no contrato; no outro, vira disputa por orçamento público, e orçamento público se disputa com política, com categoria organizada, com a luta pelo registro na CBO, sem o qual não existe cargo, concurso nem linha de orçamento com o nosso nome. E essa disputa também é nossa: quando a gente se apresenta só como fornecedora de pacote barato, ajuda a produzir o modelo que depois nos espreme.
Antes de qualquer conversa com uma gestora, ou de ler o plano do seu município, vale levar quatro perguntas:
- Quem presta este serviço: o poder público ou uma organização contratada?
- Quem fiscaliza a qualidade, e com que informação?
- Quantas famílias cada profissional acompanha?
- O que acontece com a equipe e com as famílias quando o contrato acaba?
Quando a próxima porta se abrir, a gente vai querer entrar como parte de um serviço público ou como o item mais barato de um contrato?
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Referências
AGÊNCIA BRASIL. Flávio quer escolas militares; Lula propõe ampliar educação integral. Brasília, 15 out. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2026-10/flavio-quer-escolas-militares-lula-propoe-ampliar-educacao-integral. Acesso em: 19 out. 2026.
BOLSONARO, Flávio. Plano de governo. Disponível em: https://www.flaviobolsonaro.com.br/plano-de-governo/leitura. Acesso em: 19 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 13.010, de 26 de junho de 2014. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l13010.htm. Acesso em: 19 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 13.935, de 11 de dezembro de 2019. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/l13935.htm. Acesso em: 19 out. 2026.
BRASIL. Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024. Institui a Política Nacional de Cuidados. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2024/Lei/L15069.htm. Acesso em: 19 out. 2026.
BRASIL. Tribunal de Contas da União. Participação de organizações sociais em atendimentos do SUS apresenta riscos. Acórdão 2468/2023 – Plenário. Disponível em: https://portal.tcu.gov.br/imprensa/noticias/participacao-de-organizacoes-sociais-em-atendimentos-do-sus-apresenta-riscos. Acesso em: 19 out. 2026.
BRITISH EDUCATIONAL RESEARCH JOURNAL. Artigo sobre segregação socioeconômica no sistema escolar chileno. 2021. DOI: 10.1002/berj.3746. Disponível em: https://bera-journals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/berj.3746. Acesso em: 19 out. 2026.
COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE (CEPAL). Estudo sobre segregação socioeconômica no sistema escolar chileno. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/server/api/core/bitstreams/2551f0fc-e69a-42da-b42a-1f98171e680e/content. Acesso em: 19 out. 2026.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Psicologia e serviço social nas redes públicas de educação básica: CFP transmite live sobre a implementação da Lei 13.935. Disponível em: https://site.cfp.org.br/psicologia-e-servico-social-nas-redes-publicas-de-educacao-basica-cfp-transmite-live-sobre-a-implementacao-da-lei-13-935/. Acesso em: 19 out. 2026.
ESTADÃO. Creches conveniadas à Prefeitura de SP têm o dobro de alunos e pagam menos para professor, diz TCM. Terra, 18 maio 2026. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/cidades/creches-conveniadas-a-prefeitura-de-sp-tem-o-dobro-de-alunos-e-pagam-menos-para-professor-diz-tcm,a12bf9c3b963a2083eb41113a4e45109gr0q2r3s.html. Acesso em: 19 out. 2026.
EXAME. Eleições 2026: conheça pautas do governo Lula para possível novo mandato. Disponível em: https://exame.com/brasil/eleicoes-2026-conheca-pautas-do-governo-lula-para-possivel-novo-mandato/. Acesso em: 19 out. 2026.
PLENO NEWS. Conheça o plano de governo de Lula nas eleições de 2026. Disponível em: https://pleno.news/brasil/politica-nacional/conheca-o-plano-de-governo-de-lula-nas-eleicoes-de-2026.html. Acesso em: 19 out. 2026.
