Recentemente nos deparamos com duas situações semelhantes que aconteceram em espaços distintos, entre diferentes crianças: meninas, de 3 e 5 anos, brincavam com meninos, de 6 e 7 anos, e tiveram seus corpos tocados, ainda que em tom de curiosidade. Esses fatos nos inquietaram, incomodaram e nos trouxeram inúmeras perguntas.
Somos pedagogas, educadoras parentais e mães. Vimos nos aprofundando em desenvolvimento infantil e compreendemos que é comum as crianças demonstrarem curiosidade sobre o próprio corpo e o corpo do outro. Contudo, sabemos que há uma diferença na construção social de gênero e que meninas são as maiores vítimas de violência sexual causada por homens no nosso país. Eis, então, a primeira pergunta que surgiu: sabendo que as crianças precisam de prevenção de abuso sexual, como caminhar com os meninos nesse assunto, entendendo que, enquanto crianças, são tão vulneráveis quanto as meninas, mas são eles que, futuramente, poderão cometer violência de gênero?
Junto a essa indagação, também ficamos intrigadas com a maneira com que os pais dessas crianças se envolveram no caso. Apesar de terem conversado com as suas parceiras e serem responsáveis e implicados nos cuidados das filhas, foram as mulheres, mães, quem foram buscar informações, trocar com outras pessoas e refletir para agir com efetividade e afetividade. Logo, surgiram outras perguntas: quando os homens cuidam, como cuidam e como eles conseguem cuidar? E mais, como nós, mulheres e educadoras parentais, podemos apoiar o caminho dos homens, dentro da educação, para sensibilizá-los em relação às violências de gênero, com meninos e meninas, a partir das infâncias?
Na 2ª temporada do seu Podcast “Zen Vergonha”, a apresentadora, jornalista, roteirista e mãe de três filhos, Fernanda Lima, entrevistou alguns amigos e especialistas que falaram sobre suas experiências de “masculinidade distorcida”, termo que ela usou para nomear a cultura da masculinidade que está posta hoje e que atravessa a todas e todos nós. Um dos entrevistados, o psicólogo, psicanalista e pai de três filhos, Alexandre Coimbra Amaral, elucida que essa masculinidade é uma forma de estar no mundo, como uma “roupa” que é vestida e performada. E como seria essa “roupa”? Violenta, dominadora, opressora, machista e homofóbica. Uma roupa que não permite vazão de emoções, vulnerabilidades e dualidades, fruto de uma cultura patriarcal, machista que perpetua desigualdade e violência.
Ainda que os homens exerçam violência sobre mulheres, crianças, pessoas LGBTQIA+ e se beneficiem dos privilégios desse sistema, eles também “tomam do próprio veneno”. São os homens quem mais morrem em acidentes de trânsito, homicídios e que se suicidam, por exemplo, e quando iniciam o movimento de conscientização e transformação de suas ações no mundo em direção ao cuidado e à vazão das emoções, se deparam com o vazio e a solidão que receberam como legado do machismo estrutural. Nana Queiroz, autora do livro “Os meninos são a cura do machismo” e mãe de dois filhos, afirma que “sim, os homens oprimem as mulheres e tiram vantagem do patriarcado. Mas eles também são oprimidos pelo patriarcado. As duas coisas coexistem.”.
O educador Rudolf Steiner elucida que “…o ser humano, principalmente em sua primeira infância, e também depois, até a troca dos dentes, é todo ele um órgão sensório. Com isso ele é, em primeiro lugar, como ser humano completo, receptivo a tudo o que atua em seu ambiente; por outro lado, também é levado a copiar, por si mesmo, aquilo que atua nesse mesmo ambiente”, ou seja, meninos não nascem com uma natureza opressora, apesar de bem cedo serem envolvidos por ela, eles vão se constituindo à medida que interagem com o ambiente e que este lhe conta como devem ser. Essas mensagens chegam de inúmeras maneiras: através de um brinquedo “de menino”, da ação e reação de familiares às ações e reações dos próprios meninos, como “para de chorar, seja homem”, de cumprimentos com abraços e voz doce para as meninas, e voz grossa, com estalo de mão, com “e aí, moleque” para os meninos, através de iniciação sexual precoce e exposição à pornografia, e de terem homens como exemplo e estereótipo de gênero.
Dentro desse estereótipo nas sociedades patriarcais, é esperado que os homens sejam provedores e desprovidos de sentimentos e vulnerabilidades e que as mulheres se ocupem e se responsabilizem pela educação de meninos e de meninas, como sendo, o trabalho do cuidado, uma obrigação natural de mulheres. São também elas que acolhem, abraçam e se ocupam das vulnerabilidades de suas filhas e filhos, de suas próprias e que amparam toda a sociedade. Um adendo que queremos destacar é que mulheres também reproduzem machismo na educação de meninas e meninos, pois também estão inseridas dentro do mesmo sistema, mas aqui propomos um olhar para os homens e a masculinidade.
Diante de todo esse cenário, fazemos novamente a pergunta: como nós, mulheres e educadoras parentais, podemos apoiar o caminho dos homens, pais, avôs, tios, professores dentro da educação, para sensibilizá-los em relação às violências de gênero, com meninos e meninas, a partir da infância? Como podemos promover esse tipo de mudança?
O educador parental, facilitador de processos e projetos sobre a “cultura do cuidado”, e pai de quatro filhos, Pedro Fonseca, reitera que “garantir o cuidado da primeira infância é garantir a possibilidade de sonhar futuros”. Então, como esses homens que foram se distanciando dos seus sentires, portanto de si próprios, que foram aprendendo a dominar, a prover estando longe de suas famílias e da responsabilidade afetiva enquanto pais, que aprenderam a enxergar as mulheres como subalternas e únicas responsáveis pelo cuidado, poderão cuidar de maneira efetiva e afetiva? Olhar para esse modelo de masculinidade, nos fez entender que, diante de situações como essa, é urgente que se abram espaços para que esses homens possam se colocar, se expressar, se vulnerabilizar para que consigam caminhar de maneira mais implicada e ativa em uma educação antimachista para que nossas crianças também tenham a possibilidade de sonhar futuros.
“…a questão não é tanto ‘você está educando seus filhos da maneira certa?’ mas, sim, ‘você é o adulto que deseja que seus filhos se tornem um dia?’”, escreve a pesquisadora, palestrante e mãe de dois filhos, Brené Brown. Hoje, já sabemos de alguns projetos que promovem espaços de trocas entre homens, rodas paternas e rodas mistas, que acolhem, escutam e discutem masculinidade, paternidade e tudo o que cabe dentro desse escopo. Há também projetos envolvendo adolescentes meninos. Como pedagogas e educadoras parentais, pensamos, então, na possibilidade de facilitar rodas de homens e/ou mista e trocas individuais, dentro e fora das comunidades escolares, com grande apelo ao incentivo da participação paterna, para tratar da educação das filhas e filhos a partir de uma jornada de autoconhecimento e autoeducação, pois entendemos que, educar é se auto educar e que o cuidado deve ser encarado como uma responsabilidade compartilhada por toda a sociedade.
Nana Queiroz compreende que “A reinvenção da paternidade é a reinvenção básica da masculinidade, pois ela é a primeira masculinidade a que as crianças são expostas. É urgente uma paternidade ancorada na vulnerabilidade corajosa, no afeto, no diálogo, no gozo do ato de ser pai, na participação ativa para além das necessidades materiais. Uma paternidade alimentada por tempo, não por dinheiro. Uma paternidade que seja caminho de cura para homens tão feridos por seus próprios pais.”. Portanto, existem possibilidades reais de travessia para uma masculinidade saudável: quando os homens se implicarem nos cuidados de meninos e meninas, com sensibilidade, escuta e vulnerabilidade, e estiverem dispostos a encarar toda essa dor de anos de opressão e violência, abrindo mão de seus privilégios – concedidos pela mesma fonte causadora de violência – em detrimento a uma educação amorosa, responsável, composta por diálogos, possibilidades de escolhas, presença, conexão e ação.
Referências:
“Mamilos” (Podcast), Episódio 466, “como criar meninos gentis”, 20 de agosto de 2024, Spotify.
Pós graduação em Estudos Familiares. Aulas e trocas. Rede Amparo, 2025.
QUEIROZ, Nana. Os meninos são a cura do machismo, Editora Record, 2021.
STEINER, Rudolf. A prática pedagógica. Editora Antroposófica, 2009.
“Zen Vergonha” (Podcast), Temporada 2, 2024, Spotify.
Texto produzido na pós-graduação em Estudos Familiares sob orientação de Ana Carolina Gomes Bueno

