Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

ATENCAO PROFUNDA NO ATENDIMENTO DA EDUCACAO PARENTAL

Atenção! Escutar essa palavra basta para tesarmos o corpo e colocá-lo num estado de alerta. Alerta daqueles comparados à largada de corrida de velocidade. Ligamos o radar para captar ameaça, prontos para lutar ou correr, rezando para não congelar. E apesar de muito valiosa para situações emergenciais que pedem rapidez, nem todo estado de atenção requer esse reflexo.

Nesse texto quero refletir sobre a importância da atenção profunda para o fazer da Educação ParentalEP, e refletir se ela pode apoiar pessoas que fazem parte de alguma minoria representativa que também esteja em vulnerabilidade econômica. Essa atenção profunda requer a ativação de uma sensibilidade corporal integral, mas ao contrário da descrita acima, seus alicerces são: aterramento, escuta, envolvimento e circularidade.

A atenção profunda é uma forma de cuidado que pode ser alcançada a partir da qualidade de presença da EP. Estou elaborando com base no meu fazer e a partir do que pude aprender dos saberes de duas mulheres indígenas, duas mulheres brancas, 1 homem negro, 1 homem indígena, e das aulas de Ernesto Nunes, Pedro Fonseca, Flávia Penido, Daniela Silvares, e com as estudantes da pós em Estudos Familiares.

Vamos começar pelo aterramento. Toda a nossa educação é conduzida ao trabalho com a mente – podemos até trabalhar o corpo, mas ocupa lugar secundário – como diz Cris Takuá (do movimento das escolas vivas) “letras e números são tidos como conhecimento superior, isso faz com que a memória da potência criativa das crianças adormeça.” Crescemos estimuladas a lapidar ideias, abstrações, projeções e quanto mais aparentadas com a razão estivermos mais bem aceitas e parabenizadas seremos. O que fica de fora é uma parte considerável: o corpo e as emoções. E, se até aqui subordinamos o corpo à mente, a primeira grande mudança desse convite é a integração. Aqui, o corpo contém a mente, e, apesar disso, ela não está subordinada a ele.

Para a maior parte das sociedades autonomeadas civilizadas, o corpo tem sido só o veículo da cabeça, menosprezado e subordinado à mente/consciência. Ou cultuado apenas como estátua estética. Energia e matéria, mente e corpo, razão e emoção, humano e não-humano, essas dicotomias que fazem parte da mente dualista e geram separação, devem agora ser abraçadas por uma mente paradoxal. Nesse chamado, o corpo é reinvestido de sua potência criadora e relacional. Não há hierarquias nessa relação, ou seja, o coração por ser menor não é menos valioso que a pele que é um órgão muito maior; ele bombeia oxigênio para todo o corpo enquanto a pele reveste, protege e regula a temperatura. Interdependentes, diferentes, necessários e colaborativos.

Esse é um convite para que a EP aconteça a partir do estado de vida selvagem (A. Krenak). “A vida é anterior à consciência”, o que Ana quer dizer com isso é que um bebê cresce e interage mesmo sem a consciência de si, a vida conflue (Nego Bispo) independente da mente/consciência. Neste exato momento seu rim está filtrando o sangue, seu pulmão fazendo trocas gasosas e, para algumas mães, as glândulas mamárias estão produzindo leite, sem que a consciência precise tomar parte.

A criança bebê está por excelência no fluxo de vida selvagem, ela não interage baseada no campo das ideias e mente dualista, ela interage a partir de uma multiplicidade de percepções que passa pelo toque/tato, tons de voz, estados de humor dela e das outras pessoas, clima ambiental, expressões corporais e faciais, vida não-humana. E apesar de estar muito mais no corpo, a mente participa dessas percepções, há uma tendência à integração. Há uma naturalidade para ser e estar no momento presente, sempre em mutação e diferenciação contínua.

Bom, como já estamos num estado no qual a vida conflui com dificuldade, um dos meios para facilitarmos a confluência é acessando o portal corporal. O interior da pedra, da montanha, do nosso corpo, do universo e as zonas abissais do oceano, o que têm em comum? O negrume. E assim como a semente germina na terra escura, somos gestados no escuridão do corpo. Essa prática do negrume, seguida de duas outras percepções: magnetismo terrestre e do que se sente, é um meio para aterrar e sensibilizar o corpo, de dar espaço para a retomada de sua potência que segue latente no negrume, e para a integração. Essa prática permite a entrada num campo de recepção, de descanso, de leveza, de cura; a cura vem por “metabolizarmos” as experiências com a sabedoria desse corpo sagrado. “Não tenho dúvida de que a confluência é a energia que está nos movendo para o compartilhamento, para o reconhecimento, para o respeito (Nego Bispo).

Esse mundo social hegemônico que criamos é violento e insustentável, produz um “cansaço social, resultado do tipo de comunidade que nos tornamos, ao invés de ser colo, é na verdade um desconforto, não produz efeitos de entrega, de relaxamento, mas nos torna atentos e vigilantes” (A. Krenak). Essa tensão contínua produz muitos adoecimentos e insegurança para nos relacionarmos.

O segundo pré-requisito mencionado é a escuta. Por que devemos escutar alguém? O que é que trazemos nesse contato com o outro indivíduo que nos responda por quê razão devemos escutar essa outra história (Pedro Fonseca)? A pessoa que nos procura está vivenciando uma maré de lançamento e portanto, interpretando a vivência como uma tempestade, a nossa presença em estado de vida selvagem, ofertará a mão para a travessia. Podemos nos apresentar como companhia para a travessia. Em relação, a partir do negrume, criaremos (EP e pessoa atendida) um campo de criação. Desse campo podem surgir insights, alternativas criativas (proposições), novos olhos ou até mesmo trabalhar a musculatura da resiliência. Nesse campo não há garantias nem controle.

As duas últimas características vão ser comunicadas juntas e de forma breve pela limitação da proposta paper. Envolvimento é um conceito do mestre Nego Bispo, um conceito/vivência contracolonial,contrário à ideia de desenvolvimento predatório e necropolítico. O envolvimento está compromissado com a diversidade, a subjetividade, a territorialidade e o compartilhamento, seu enlace não está restrito à vida humana, mas sim à natureza com toda a complexidade de vidas (não-humanas e humanas). E a circularidade está muito imbricada com o envolvimento.

É a partir de uma ampliação de vínculo com a natureza que surge naturalmente a circularidade do cuidado. De forma simplificada, a circularidade do cuidado é quando cuidamos e somos cuidadas. Essa circularidade, na vida prática, pode se manifestar de vários modos, pode ser na mesma moeda ou de formas diferentes. Ao abraçar também somos abraçadas. Se seres humanos transmutam oxigênio em gás carbônico, as árvores transmutam em sentido inverso, o vento circula carregando os gases de que cada ser precisa. Uma pessoa que alimenta uma criança e sente sua felicidade e gratidão expressas na troca de olhares é nutrida por essa relação afetiva.

“Nós pensamos sempre na circularidade, quebrando o monismo, a dualidade e o binarismo.” A água vai e retorna ao lugar de onde partiu na circularidade. “Ou seja, ela vai na correnteza, encontra outras águas, fortalece-se na correnteza, mas ao mesmo tempo evapora, percorre outro espaço, em forma de nuvem, e chove. A chuva vai para outros lados, mas também volta para as nascentes. […] Elas não vêm pelo mesmo percurso, caminho ou curso. Elas vêm na circularidade. Ao mesmo tempo que algo vai, fica; ao mesmo tempo que fica, vai – sem se desconectar.” (Nego Bispo) p. 17 e 31

O cuidado acontece como uma atitude inerente à natureza permeada pelo fluxo da vida, essa rede intrincada e altamente conectada. Mas por quê mulheres, crianças e idosas muitas vezes não se sentem cuidadas? Minha aposta é de que fomos criando socialmente uma segunda pele quase impermeável, o fluir e o vínculo da/com a vida ficou prejudicado, nos tornamos insensíveis e produzimos esse modo de viver desequilibrado. A prática da atenção profunda precisa ser experienciada dia a dia, precisamos ganhar intimidade com essa integração; será que assim conseguiríamos criar uma sociedade que tem por princípio a ética do cuidado? Percebo também que é importante guardar a sacralidade da vida, por mais que possamos senti-la, por mais que produza nossa experiência de estar vivas, a vida é um mistério, não conseguimos defini-la, seja por meio do conhecimento científico, seja pelo conhecimento das cosmovisões dos povos.

Somos chamadas a “jardinar territórios” (Krenak e Cristiane Takuá). Isso só é possível com envolvimento, não há hierarquia de importância de vidas. Radicalmente dizendo – e sei que é uma ideia controversa – éir além da experiência que coloca a própria sobrevivência acima de tudo (Krenak). Além disso, há um novo vício social chamado autoengano, já sentimos que estamos encurraladas, que esse modo de vida é insustentável, mas queremos revestir o velho de novas aparências, ao invés de assumirmos a falência do mundo que criamos e corajosamente criarmos outro mundo sobre outra base.

Para as pessoas dos grupos representativamente minoritários que estão também em vulnerabilidade econômica, esse cansaço social é muito acentuado. Há um esvaziamento do sentido da vida, uma desesperança dilacerante que mina o ânimo. Vivemos numa maré de lançamento, uma atrás da outra por conta de uma estrutura social violenta. Esse trecho foi escrito por Ailton após a tragédia de rompimento da barragem em Mariana-MG 2015, “o que nos resta é viver as experiências, tanto a do desastre quanto a do silêncio. Às vezes nós até queremos viver a experiência do silêncio, mas não a do desastre, pois é muito dolorosa. Nós, Krenak, decidimos que estamos dentro do desastre, ninguém precisa vir tirar a gente daqui, vamos atravessar o deserto, temos que atravessar.” Apesar de tratar do contexto de um povo originário, esse acontecimento guarda muita relação com o que sofrem as minorias representativas de classe baixa.

Num atendimento de EP, no qual não cabe a ‘salvação’ (católica), que respeita o território corpo e o território geográfico cultural, ciente das violências estruturais e desigualdade social a que estão submetidas as minorias representativas no Brasil, proponho a seguinte reflexão: O que pode o conhecimento científico e o que pode a atenção profunda diante de contextos de vida tão vulneráveis?

Os desafios podem se apresentar como uma terra árida, da próxima vez que avistar um deserto à sua frente, atravesse!

Referências:

A Jornada Do Herói. Vivência Com Ana Thomaz. Setembro a Novembro de 2024;

Zoom, Canal do Youtube e Telegram do Muda Momentum.

Ciclo Outras Economias – Cosmologias do Dinheiro | Nego Bispo e Ailton Krenak. Disponível em: Https://Www.Youtube.Com/Watch?V=Ueqav_4fwby&T=884s

Circoluz. Vivências com Márcia Baja. Zoom, Canal do Youtube e Lives no Instagram @Marciabaja. De 2024/2025

Conversa Selvagem – Ailton Krenak, Cris Takuá e Anna Dantes. Disponível em:

Https://Www.Youtube.Com/Live/Mxwworqt6sa?Si=Mfi16rot4aswp4d9.                               Site Https://Selvagemciclo.Org.Br/ e Canal do Youtube Selvagem.

Krenak, Ailton. A Vida Não é Útil. Companhia das Letras, 2020

Krenak, Ailton. A Vida é Selvagem. Caderno 12. 2020

Metamorphosis, o Corpo Sensível. Vivência com Ana Thomaz. Fevereiro a Abril de 2022;

Nêgo Bispo: Vida, Memória e Aprendizado Quilombola. Disponível em: Https://Www.Youtube.Com/Watch?V=Glo9zndgjxw

Núñez, Geni. Descolonizando Afetos: Experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.

Santos, Antonio Bispo. A terra dá, a terra quer. Editora Ubu. 2023.

Sempre um Papo com Geni Nuñez e Ailton Krenak. Disponível em: Https://Www.Youtube.Com/Watch?V=Rk8mn3usbfe

Quem não sou eu? Vivência com Ana Thomaz. Setembro de 2022;

Trajetórias. Nego Bispo. Disponível em: Https://Www.Youtube.Com/Watch?V=Tqt9bnrolfg

Texto produzido na pós-graduação em Estudos Familiares sob orientação de Ana Carolina Gomes Bueno

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Outros Artigos