No dinâmico cenário do ambiente escolar, a figura do educador parental surge como um farol de orientação e amparo importante para os cuidadores. Munido de ferramentas e estratégias, atuando como um catalisador na redução de conflitos e no aprimoramento da comunicação entre cuidadores, crianças e adolescentes. Sua prática se fundamenta em uma escuta ativa e em um acolhimento genuíno, qualidades que propiciam um olhar mais sensível e assertivo sobre as complexidades da comunidade escolar e as singularidades, ampliando o repertório do professor e da família sobre o cuidado com a criança e adolescente.
O educador parental se estabelece como um pilar fundamental na construção de um ecossistema educativo mais harmonioso, respeitoso, consciente e profundamente voltado para o bem-estar integral.Através de ações individuais e coletivas a partir da demanda daquele estudante ou turma podendo oferecer um olhar para as questões individuais e sistêmicas daquele ambiente de aprendizagem e assim transformar o ambiente de aprimoramento em um lugar de formação de indivíduos que somam e pensam sobre as suas diferenças ao invés de criticarem e não acolherem os divergentes.
Ao longo do tempo, o campo da educação tem sido foco de inúmeras investigações científicas, realizadas no Brasil e em todo o mundo, com o objetivo de compreender e avaliar suas práticas. Grande parte dos estudos realizados nessa área se dedica, notadamente, à problemáticas relacionadas aos estudantes – como o insucesso escolar, dificuldades de aprendizagem, disfunções comportamentais e afetivas (bullying, depressão, ansiedade) ou, por outro lado, relacionadas ao estresse, burnout e insatisfação profissional dos professores. Além do crescente número de diagnósticos dos alunos que pode interferir no seu desempenho social e\ou escolar onde as escolas são cobradas pela família um olhar diferenciado ao mesmo tempo em que a escola devolve para os pais a necessidade de seus filhos se adequarem àquele sistema educacional pré- estabelecido.Sendo assim, as pesquisas enfatizam, de modo geral, o adoecimento, as deficiências e o insucesso, ou seja, o que está ‘dando errado’ nos contextos educacionais. Diante dessa perspectiva, a proposta da Educação Parental é romper com os paradigmas da educação tradicional, ampliando o olhar sobre o cuidado, fugindo da estrutura economicista que segrega e rouba a lógica de um espaço que deve ser de transformação, revoluções, trocas e de pesquisas.
Na visão de Michel Foucault, a escola é uma das “instituições de sequestro”, como o hospital, o quartel e a prisão, como cita Alfredo Veiga-Neto “São aquelas instituições que retiram compulsoriamente os indivíduos do espaço familiar ou social mais amplo e os internam, durante um período longo, para moldar suas condutas, disciplinar seus comportamentos, formatar aquilo que pensam, etc.”.
A escola não deve ser um local de adestramento, no qual as individualidades são suprimidas pelas metas reducionistas do sistema escolar. Nesses espaços, o professor é ainda (isso ainda é temporário) detentor de poder, seguindo uma visão de produtividade, onde não há equidade entre docente e discente. As regras são estritamente ligadas à moralidade social e civilizatória, e o sistema de avaliação por notas reforça uma hierarquia e robotização. Salas enfileiradas, piso de concreto, uniformes padronizados, etc. São frutos históricos que precisam ser repensados e reformulados.
A complexidade da Educação Parental se revela em nuances distintas ao ser implementada nos cenários contrastantes das escolas públicas e privadas. A escola públicalida com a diversidade de recortes de classe e raça, sendo atravessada por urgentes questões econômicas e sociais que ecoam nas demandas de crianças e jovens em vulnerabilidade. Já a escola privada trabalha na performance, segregando e expondo crianças e jovens a uma lógica de competição. Nesse contexto, professores, muitas vezes sobrecarregados e com remuneração inadequada, são submetidos a uma lógica de produtividade que prioriza a entrega de resultados pelos alunos, culminando no tão almejado “sucesso” institucional, mas, paradoxalmente, invisibilizando as particularidades e necessidades individuais dos estudantes. Ambas as esferas educacionais compartilham de desafio comum apesar do contexto socioeconômico.
Para Souza (2019, p. 45) as escolas, enquanto instituições sociais, são arenas de intensos conflitos e transformações, onde questões de identidade, desigualdade e direitos humanos se cruzam, e onde, muitas vezes, a falta de apoio adequado cria um ambiente de tensão e exclusão, em vez de acolhimento e proteção.
Diante desse panorama, a implementação eficaz da Educação Parental emerge não como uma solução homogênea, mas como uma estratégia adaptável, capaz de reconhecer e responder às especificidades de cada contexto, fortalecendo os laços entre a escola, a família e o aluno, e buscando mitigar os impactos das distintas realidades que moldam a jornada educacional.
O educador parental desempenha um papel multifacetado e de grande relevância nos espaços educacionais. Sua atuação contribui para a construção de uma comunidade educativa mais forte, coesa e focada no desenvolvimento integral da criança e do adolescente, abrangendo a sensibilidade para nutrir um clima escolar positivo, a habilidade de construir pontes sólidas entre lares e instituições de ensino, e a capacidade de empoderar cuidadores de forma responsiva e transformadora.
Referências bibliográficas
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Texto produzido na pós-graduação em Estudos Familiares sob orientação de Ana Carolina Gomes Bueno

